Boletim Epidemiológico Mensal n° 05/2018 – Vigilância da Doença Meningocócica (Atualizado em 04 de outubro de 2019)

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A doença meningocócica (DM) pode ser considerada um evento raro. No entanto, pela possibilidade da ocorrência de casos graves com alta letalidade, com uma evolução aguda, ou pelo seu potencial epidêmico, poucas doenças têm tanto poder de causar pânico entre a população. Causada pela bactéria Neisseria meningitidis (meningococo), apresenta três formas clínicas: meningite meningocócica (MM), meningite meningocócica com meningococemia (MM+MCC) e meningococemia (MCC).

A N. meningitidis é classificada em 12 sorogrupos, de acordo com a composição antigênica da cápsula polissacarídica. Os sorogrupos A, B, C, Y, W e X são responsáveis por praticamente todos os casos da doença no mundo e infectam apenas humanos. Como fatores de risco para o adoecimento, estão descritos o contato íntimo com paciente doente, a infecção respiratória aguda recente, o hábito de fumar, o convívio em aglomerados urbanos, as doenças crônicas e as síndromes imunossupressivas.

Gráfico 1: Casos confirmados e incidência (100 mil hab.) por doença meningocócica. SC, -2007-2019*.

Fonte: SINAN (Atualizado em 04/10/2019). SE 40. Dados sujeitos a alterações.

O número de óbitos por doença meningocócica apresentou uma queda a partir de 2008, mantendo-se numa média de 7 óbitos por ano entre 2008 e 2014, com uma letalidade variando de 18,9% a 21,2%. Em 2015, o número de óbitos subiu para 12, elevando a letalidade para 36,4%, reduzindo para 19,5% em 2016, porém voltando a aumentar em 2017 (23,7%) e encerrando ano de 2018 com 18%. Em 2019, até a SE 40 foram confirmados 8 óbitos por doença meningocócica, com uma taxa de letalidade de 20,5%, de acordo com Gráfico 2.

 

Gráfico 2: Óbitos e taxa de letalidade (%) por doença meningocócica. SC, -2007- 2019*.

Fonte: SINAN (Atualizado em 04/10/2019). SE 40. Dados sujeitos a alterações

No ano de 2018, a faixa etária com maior número de casos foi de 30 anos, com 29,2%, seguida pela faixa etária de 20 a 29 anos de idade, com 25,8%. A taxa de letalidade, em 2018, concentrou-se ao longo do ano na faixa etária de 20 a 29 anos. Em 2019, 33,3% dos casos se concentraram na faixa etária de maior de 30 anos; a letalidade se apresentou maior na faixa etária de 10 a 14 ano e de 15 a 19 anos com uma taxa de 50% em cada faixa etária, seguida pela faixa etária de 20 a 29 anos com taxa de 20,5%. (Tabela 1).

Tabela 1: Distribuição de casos, óbitos e letalidade por Doença Meningocócica segundo faixa etária e ano de início de sintomas. SC, 2018 -2019*.

Fonte: SINAN (Atualizado em 04/10/2019). SE 40. Dados sujeitos a alterações

Com relação à distribuição por sorogrupo, observa-se um incremento importante no diagnóstico laboratorial por meio da diminuição da proporção de casos não identificados, com queda de 64,9% em 2007 para 17% em 2017. De 2007 a 2013, o sorogrupo B teve uma maior proporção de amostras identificadas. Entre 2014 e 2016, observou-se uma maior circulação do sorogrupo C, com uma pequena elevação do sorogrupo W. Já em 2018, o sorogrupo W é o responsável por 39,3% do total de casos de DM seguido pelo sorogrupo C (38,2%) e sorogrupo B (13,5%). Em 2019, o sorogrupo C e W foram responsáveis por 30,8% das amostras, e o sorogrupo B responsável por 17,9% das amostras com identificação. Os casos sem identificação de sorogrupo representam 15,4% como ilustra o Gráfico 3.

 

Gráfico 3: Distribuição de casos confirmados de doença meningocócica segundo sorogrupos. Santa Catarina, 2007-2019*

Fonte: SINAN (Atualizado em 04/10/2019). SE 40. Dados sujeitos a alterações

 

 

Quando observada a distribuição por sorogrupo nas faixas etárias, identificamos o sorogrupo W presente nas faixas etárias de menores de 1 ano, de 1 a 4 anos, de 15 a 29 anos, de 40 a 49 anos e nas faixas etárias acima de 60 anos. O sorogrupo C foi identificado nas faixas etárias de 10 a 59 anos. O sorogrupo B foi identificado nos menores de 4 anos, na faixa etária de 20 a 29 anos e também na faixa de 40 a 49 anos. Sorogrupo Y foi encontrada na faixa etária de menores de 1 ano e 15 a 19 anos. (Gráfico 4).

 

Gráfico 4: Distribuição dos casos confirmados de doença meningocócica segundo faixa etária e sorogrupo. Santa Catarina, 2019*

Fonte: SINAN (Atualizado em 04/10/2019). SE 40. Dados sujeitos a alterações

 

Em relação ao local de ocorrência dos casos, em 2019, até a semana epidemiológica nº 40, os 39 casos confirmados de DM ocorreram em 23 municípios catarinenses. Lages e Criciúma são os municípios com maior número de casos (4 cada); Brusque tem 3 casos confirmados; Blumenau, Criciúma, Itajaí, Palhoça, Itapema e São José concentram 2 casos em cada município; em Apiúna, Água Doce, Balneário Camboriú, Bombinhas, Fraiburgo, Garopaba, Imbituba, Laguna, Jaraguá do Sul, Joinville, Navegantes, Porto União, São Francisco do Sul, Três Barras, Tubarão e Turvo, foram identificados 1 caso em cada município. (Tabela 3).

 

Tabela 3: Casos de Doença Meningocócica segundo mês e município de residência. Santa Catarina, 2019*

 

Fonte: SINAN (Atualizado em 04/10/2019). SE 40. Dados sujeitos a alterações

 

Em 2019, dos 39 casos confirmados de DM, 12 (30,8%) foram identificados como sendo do sorogrupo W, 12 (30,8%) foram do sorogrupo C, e 7 (17,8%) como sorogrupo B. O sorogrupo Y foi identificado em 2 casos (5,1%). Dos 8 óbitos, 4 (50%) foram identificados como sendo do sorogrupo W, 01 (12,5%) do sorogrupo B, 02 (25%) do sorogrupo C e 1 com sorogrupo Y (12,5%) (Tabela 2).

 

 

 

Tabela 2: Distribuição de casos e óbitos por Doença Meningocócica segundo Sorogrupo. SC, 2019*.

Conforme analise do canal endêmico, em 2018, até o mês de junho 26 casos mantiveram-se dentro da zona de alerta e de segurança, a partir de julho, os 63 casos confirmados de DM mantiveram-se acima da zona de alerta. (Gráfico 5).

 

Em 2019 os 39 casos confirmados de DM em Santa Catarina mantiveram-se na zona de segurança durante a maior parte do ano, superando esse limite apenas no mês de março, retornando à zona de segurança no mês de abril mantendo-se assim até o mês de setembro, como ilustra o Gráfico 6.

 

Gráfico 5: Canal endêmico mensal de doença meningocócica. Santa Catarina, 2018*.

Fonte: SINAN (Atualizado em 04/10/2019). SE 40. Dados sujeitos a alterações

 

Gráfico 6: Canal endêmico mensal de doença meningocócica. Santa Catarina, 2019*.

Fonte: SINAN (Atualizado em 04/10/2019). SE 40. Dados sujeitos a alterações

Considerações Finais

No estado de Santa Catarina até a semana epidemiológica 40 de 2019 o comportamento da doença meningocócica permanece endêmico, com incidência de 0.55% por 100.000 mil/hab. Entre os casos confirmados em 2019, 17,9% são do sorogrupo B, sorogrupo C 30,8%, 2 casos do sorogrupo Y representando 5% das amostras; 30,8% foram identificadas como sorogrupo W e não identificados somam 15,4% das amostras.

A melhora no diagnóstico laboratorial com a diminuição de casos com sorogrupo não identificado deve ser considerada na observação da proporção de sorogrupos ao longo dos anos. No ano de 2017, o sorogrupo W foi responsável por 42% do total de casos de DM, seguido pelo sorogrupo C (28%), sinalizando uma provável mudança no perfil dos últimos 10 anos. No ano de 2018, foram confirmados 89 casos com incidência de 1,26% por 100.000 mil/hab, maior incidência desde 2007.

Todas as medidas de prevenção destinadas à população em geral devem ser reforçadas, com o objetivo de controlar os mecanismos de transmissão das doenças respiratórias, com ênfase em recém-nascidos e menores de 1 ano, evitando que este grupo tenha contato com pessoas doentes, contato íntimo (beijos) ou compartilhem objetos que contenham secreções respiratórias (chupetas, mamadeiras, alimentos, etc.), além da exposição a aglomerado de pessoas.

Todas as crianças acima de 1 ano de idade e adultos com febre, cefaleia, vômitos, rigidez da nuca e outros sinais de irritação meníngea, convulsões e/ou manchas vermelhas no corpo devem ser considerados casos suspeitos. Nos casos de meningococcemia, atentar para petéquias, sufusões hemorrágicas e menos frequente rasch maculopaular, além de sinais e sintomas inespecíficos (sugestivos de septicemia), como hipotensão, diarreia, dor abdominal, dor em membros inferiores, mialgia, rebaixamento do sensório, entre outros. Em crianças abaixo de 1 ano de idade, os sintomas clássicos acima referidos podem não ser tão evidentes; é importante considerar, para a suspeita diagnóstica, sinais de irritabilidade, como choro persistente, e verificar a existência de abaulamento de fontanela.

Todos os serviços de saúde devem estar atentos à detecção precoce dos casos suspeitos de DM, bem como realizar a notificação imediata dos casos suspeitos às autoridades competentes. A notificação pode ser realizada por qualquer profissional da área da assistência, vigilância e pelos laboratórios públicos e privados, através de contato telefônico, e-mail, fax ou outras formas de comunicação.

As medidas de controle têm por objetivo prevenir casos secundários. No caso da DM, uma delas é a quimioprofilaxia, que visa erradicar os agentes causadores de doenças invasivas da oronasofaringe dos portadores sadios que, via de regra, estão entre os comunicantes íntimos do caso índice, além de prevenir casos secundários. Os casos secundários são raros e, geralmente, ocorrem nas primeiras 24h após a notificação do caso suspeito, considerando 10 dias antes do início dos sintomas. A quimioprofilaxia está indicada para os contatos domiciliares do doente, incluindo os domicílios coletivos como internatos, quartéis e creches e, nesse caso, limita-se a pessoas que compartilhem o dormitório com o doente. Consequentemente, excluem-se da quimioprofilaxia os colegas de trabalho, de sala de aula e outros contatos. Não há recomendação para os profissionais da área de saúde que atenderam o caso de doença meningocócica, exceto para aqueles que realizaram procedimentos invasivos (intubação orotraqueal, passagem de cateter nasogástrico) sem utilização de equipamento de proteção individual adequado (EPI). O antibiótico de escolha para a quimioprofilaxia é a rifampicina, que deve ser administrada em dose adequada e, simultaneamente e exclusivamente, a todos os contatos íntimos. A recomendação para uso preferencial e/ou restrito da rifampicina, além do tratamento da tuberculose no país, visa evitar a seleção de cepas resistentes de meningococos.

O Programa Nacional de Imunização (PNI) dispõe de vacinas que podem prevenir algumas formas de meningite (BCG, Meningo C, Haemophilus B, Pneumocócica). Em relação à Doença Meningocócica, a vacina meningocócica C conjugada se encontra disponível para crianças a partir de três meses de idade até menores de cinco anos e, a partir de 2017, o Ministério da Saúde passou a disponibilizar a vacina para adolescentes na faixa etária de 11 a 14 anos, que recebem um reforço da vacina ou dose única, conforme situação vacinal. Estas vacinas estão disponíveis em todas as unidades básicas de saúde do SUS.


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